2.10.08

Dislexia e paraquedismo não combinam

5 comentários
Aos 3 anos, bati com a testa na quina do portão. Aos 5, desci a ladeira de bicicleta e arrebentei o nariz no poste. Aos 7 caí de um banquinho e quebrei o braço. Aos 10, torci o pé no raio da bicicleta. Aos 13, chutei uma lâmina de aço e abri um corte profundo no pé. Aos 15, me pediram para receber um cheque. Eu não tinha bolsos, e então guardei o cheque dentro do boné. O sol estava quente, e eu tirei o boné para coçar a cabeça. Me esqueci completamente do cheque. Aos 16, no 1º dia de aula, fui à escola com a camisa pelo avesso. Aos 17 anos, eu voltava de uma festa a pé, e quase fui linchado por uma gangue, no meio da travessia de uma ponte. Pensei que fossem me jogar lá de cima. Para a minha sorte, os caras já haviam apanhando em uma briga anterior e estavam grogues e cansados. Aos 18, recebi o meu primeiro pagamento e saí do trabalho direto para o fliperama. Fiquei por lá até umas 22:00. Quando chego em casa, a família estava a ponto de acionar a polícia. Aos 19 eu comprei um disco de camdomblé (os LPs estavam na promoção). Eu tocava o disco no volume máximo. Dias depois, ele desapareceu da minha prateleira. Descubro que foi o velho. Aos 20, eu quase explodi uma fábrica onde trabalhava. Aos 21, atravessei metade da cidade arrastando um pedaço de cipó enroscado na perna da calça. Aos 22, fiquei trancado dentro de uma escola de informática. Fui ao banheiro e quando saí, estava tudo escuro. Encontrei uma agenda na gaveta de uma escrivaninha, liguei para alguém explicando a situação. Tiveram que chamar o dono da escola pra ir lá abrir a porta. Aos 23, eu saí para trabalhar e me esqueci de pentear o cabelo. Isso começou a se repetir com freqüência. Eu também estava ficando mestre em esquecer o zíper da calça aberto. Ou vestir meias de cores diferentes. Uma marrom, a outra preta.

dislexia e paraquedismo não combinamNessa época, eu trabalhava na recepção de um hotel. Quando atendia o telefone e alguém queria saber o preço de um apartamento, a primeira coisa que eu devia perguntar era quantas pessoas iriam se hospedar. Com o tempo, isso foi ficando automático. Eu atendi uma ligação:
- Hotel X, bom dia.
- Estou em lua-de-mel e quero reservar um apartamento.
- Para quantas pessoas, senhor?
- Como é?!
- Digo, me desculpe! O sr. quer é um apartamento de casal, certo? Alô?

Aos 26 anos me casei, e apesar de não ter onde cair morto, eu acreditava que daria certo. Aos 28 anos, eu trabalhava em um escritório. Esquecia de passar recados, perdia papéis importantes, enviava correspondências para endereços errados. No último mês esqueci de mandar algumas vias de notas fiscais à contabilidade, e por isso eles deixaram de pagar uma parte dos impostos. Paguei a diferença do meu bolso, e pedi demissão antes que algo pior acontecesse. Hoje, com 31 anos, passo o dia "blogando". Talvez eu volte a morar com meus pais. Se eles me aceitarem.

5 comentários -

Beleza de Ser disse...

Acho que encontrei meu irmão perdido! Imagine essas suas historias com alguns ajustes na versão feminina...

Johnny Rox disse...

:-)

thahy disse...

hahahahahahahahahahahahahahahaha

meo deos!

hahahahahahaha e o paraqueda onde é que entra?!

kkkkkkkkkkkkkkkkkk

Daniel disse...

Tragicomédia é a palavra que define a sua vida. Mas a parte de voltar a morar com os pais é tragédia pura.

Johnny Rox disse...

A parte da comédia está ficando a cada dia mais sem graça, Daniel.

Thahy, quem comete muitos erros, algo característico da dislexia, precisa evitar atividades de risco, não acha?

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